
Jeitinho brasileiro
Por Albanir Faleiros Machado Neto
Tudo na vida nós trás provas de como as pessoas se organizam e se relacionam, pensando em aspectos culturais como festas populares, religiosas, procissões, desfiles, paradas militares, pode-se analisar a sociedade brasileira. Além disso, aspectos recorrentes como o famoso “jeitinho brasileiro” é a personalização das relações sociais e caracterizada, entre outros fatores, pela expressão “você sabe com quem está falando?”. Isto tambem nos mostra a fabulosa inversão de papéis que acontece por quatro dias do ano nas ruas, o pobre vira nobre, a elite posa de povo.
O lado autoritário e hierarquizado da sociedade brasileira tem pelo menos três dimensões distintas. Uma é a existência de uma ordem formal, baseada em posições de status e prestígio social bem definidos, onde não existem conflitos e onde "cada um sabe o seu lugar". A outra é a existência de uma oposição sistemática entre o mundo das "pessoas", socialmente reconhecidas em seus direitos e privilégios, e um universo igualitário dos indivíduos, onde as leis impessoais funcionam como instrumentos de opressão e de controle, "para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei". A terceira é o mundo do sagrado, onde se opera uma suposta equalização da sociedade, já que todos são filhos de Deus, mas ao mesmo tempo são mantidas estruturas claramente hierárquicas de santidade.
Estes sistemas hierarquizados operam uma dissociação entre dois mundos ideais na mitologia brasileira, o mundo da casa, onde as pessoas valem pelo que são, onde reina a paz e a harmonia, e o mundo da rua, onde os indivíduos "lutam pela vida" em uma batalha impiedosa e anônima. Nesta batalha, as principais armas são, alternativamente, a afirmação dos privilégios de status das pessoas das classes dominantes e a redução dos indivíduos às leis impiedosas do mercado e da burocracia. Se as paradas, as procissões e a afirmação dos privilégios de status das pessoas das classes dominantes ritualizam e explicitam os aspectos hierárquicos e autoritários da sociedade brasileira, o carnaval e os heróis populares dramatizariam o seu oposto. O carnaval é essencialmente igualitário e, nos seus três ou quatro dias, transpõe para o mundo da "rua" os ideais das relações espontâneas, afetivas, e essencialmente simétricas que são a contrapartida das paradas. A negação que o carnaval faz das estruturas de poder e autoridade é corporificada no malandro e seu paradigma
O malandro, ao contrário do herói, não busca dominar a estrutura do poder e a ela se sobrepor, e nesse processo, terminar por ser reabsorvido por ela. Ele vive nas fendas do sistema, de seus absurdos e de suas contradições. Se o herói sai das paradas e o malandro dos carnavais, outro personagem, o místico renunciador, sai das procissões. Ele rejeita o sistema como um todo, nem o aceita nem se aproveita dele, mas cria seu próprio espaço de vida e seus próprios valores
Pode-se constatar que tanto o personagem malandro como o ritual do jeitinho possui características semelhantes, o malandro é conhecido pela engenhosidade, sutileza, destreza, carisma, lábia que permitem manipulação de pessoas ou resultados, de forma a obter o melhor destes, e da maneira mais fácil, o que também acontece com quem pratica o jeitinho. Em suma , o “jeitinho” é um modo simpático, desesperado ou humano de relacionar o impessoal com o pessoal estando enraizado na cultura brasileira . Não tem jeito, é cultural.
texto publica 04/2009 - Jornal de Negócios
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